quinta-feira, 3 de março de 2016

Errante

Aquém de qualquer sotaque.
Era do mundo,
Pro mundo,
E entendia que a vida é só essa.
Sem pressa, tentava não morrer.
Agora.
Tentava viver as aventuras,
Que muitas vezes não cabia em papel
- Mesmo os de árvores grandes -.
Iniciava uma nova jornada.
Sua granada era a simplicidade.
Entendia que armaduras tiravam a mobilidade,
E que o não uso delas
O deixava vulnerável.
Resolveu aprender a lutar.
Esquivar faz parte,
Criança faz arte,
Artista faz comercio.
Ele, na sua inocência,
Caiu na quase demência,
De procurar profundezas,
Velejando em lagos rasos.
De procurar em miudezas,
Amores, e não, afagos.
Outrora,
Se via seco,
Se via estreito.
Sua saída tinha um beco.

– Carlos I. Gomes.



terça-feira, 1 de março de 2016

Da lama ao caos



A ordem nunca produziu nada, além de réplicas. O novo, para nascer, precisa do caos. Qualquer nascimento, é necessariamente conturbado. Desde uma planta, a um poema; desde uma criança, à uma descoberta científica. A vida é caótica por natureza.
               Milhares de anos atrás, o elemento fogo foi percebido pelo Homem, e usado como instrumento. E esse achado mudou totalmente o nosso modo de agir, de pensar, de comer, e modificou inclusive o nosso corpo – já que agora a carne passou a ser assada, e tornou-se macia. Portanto, mais fácil de ser mastigada. Acabou a necessidade de mandíbulas tão protuberantes -. Além de modificar o aparelho digestório. O fogo, que hoje sai de um simples aperto no botão de um isqueiro, ontem, foi originário de uma revolução. Ele não existia só para os humanos, mas também para os outros animais. Porém, o caos da natureza, que para os outros animais, é ordem, para nós, é revolução.
            Apenas nós vemos, e muitas vezes, criamos o extraordinário. Para eles, sempre mais do mesmo. Nós até nos deslumbramos com a “simples” metamorfose da lagarta que vira borboleta. Apesar de ser de fato fascinante, é comum. Acontece aos montes. Incomuns são as obras de Niemeyer; os bonecos de Vitalino; os escritos de João Cabral de Melo Neto; as sinfonias de Bethoven... A lista não cabe em papel. Mas por que a metamorfose da borboleta tanto nos fascina? 
            Com a presença do fogo, o Homem perdeu um denominador com a todos a todos os outros animais: O Predador! Sem ele, passamos a habitar o topo da cadeia alimentar, e sermos o vilão de qualquer historinha de ninar contado pela mamãe urso, aos seus filhinhos.
            O fogo virou arma, proporcionou a criação de instrumentos de caça melhores, e em consequência disso, a briga deixou de ser pela mera sobrevivência diária. Passamos a planejar o amanhã. Sem predadores, não há a necessidade de locomoção em curtos intervalos de tempo. Deixamos de ser nômades, e tivemos um aumento populacional. A briga passou a ser pelo território. A agricultura, recém nascida, precisava de terras férteis e irrigação, para gerar seus frutos. Os humanos, recém estabilizados, precisavam de armas para garantir que isso acontecesse. Aconteceu!
            Fortificamos nossos abrigos; domesticamos animais; expandimos nosso território, e pouco a pouco, modificamos a natureza. Incontáveis foram as guerras. E veja que absurdo: uma luta interespécie, tornou-se também, intra. Nos tornamos o “vizinho chato” que briga com todo mundo. Instauramos o caos, onde tudo era ordem( por mais conturbada que fosse). Nos tornamos donos do mundo, porém, perdemos nossa parte mundana.
            É inegável que a humanidade evoluiu em diferentes aspectos ao longo dos milênios. É inegável que as guerra trouxeram avanços. É inegável que o caos também trás o progresso. Mudanças surgem necessariamente de crises. É comum nos sentirmos bem ao estarmos em contato com a natureza, respirando ar puro, tomando banho em rios, subindo em árvores, e pisando descalço na areia fofa da praia, ou no chão de barro. Há uma “religação”. Algo talvez de ordem espiritual. O problema é que esquecemos que também seríamos “mais do mesmo”, se não fosse o raciocínio.

Ps.: peguei o título emprestado do Chico Science


 – Carlos I. Gomes. 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O Desenhista

No silêncio do escuro,
Um filete de luz se anuncia.
Se não fossem com os traços de lápis,
Talvez com a boca, falaria.
Toda via, em todas as vias
Já trafegavam carros,
Todos os dias pareciam caros,
A semana ficou falida.
É preciso saber o que se apaga,
Se é flor ou se é adaga,
Pra não comprometer o desenho.

-Carlos I. Gomes.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Supetão



Sabe aquela amizade de infância?
Foi construída agora.
Todo o carinho que eu deveria ter pelos do passado,
Foi cravado pelo teu carinho presente.
Confessei a ti o meu maior pecado,
E em um abraço apertado,
Me deixaste contente.
És semente!
Pois tens muito a germinar.
Em mim, estás brotando.
Ganhando cada vez mais espaço.
Não tem esquadro, régua ou compasso,
Que diga o ângulo, o comprimento ou o ritmo.
E desse barco que sou marujo,
Quanto mais limpo,
Mais estou sujo,
Te declaro: Capitã!

-Carlos I. Gomes.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Até a próxima!



Esbarrei nos teus cachos.
Pretos, assim como os meus,
Que feitos, assim como os teus,
Costumavam se aquietar.
Não dessa vez.
Um alvoroço.
Pareciam se alegrar com o suor derramado pela dança,
Pareciam bailar como a esperança
De jovens sonhadores.
Parecia ter a força de mil homens,
Com mais de cem cavalos de potência.
Parecia essência!
Agora espero a vez do Coco pisado.
Pra de novo escorrer o suor,
Pra de novo nós dois dá um nó,
Desses que não solta com pente.

-Carlos I. Gomes.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Somos



Somos gente, somos mente,
Somos corpo, quiçá espírito.
Somos grito que sussurra as quatro cantos,
Somos prantos sorrisos e alegrias.
Somos a construção e também os engenheiros.
Passageiros de uma só embarcação.
Somos vida, somos morte,
Sem precisar se sorte,
Muito menos de azar.
Os nossos braços servem de abrigo,
Para o amigo que enfrenta a tempestade.
Não somos metade, nem um todo fechado,
E nem um cadeado,
Que precisa de uma chave.
Somos tantos que já nem sei ao certo,
É como dizia Humberto:
“Somos quem podemos ser,
Sonhos que podemos ter”,
Que nunca foram,
Nem tiveram!


– Carlos I. Gomes.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Nunca abra uma gaveta velha! (se não quiser mudanças)



Hoje eu estava procurando uns pertences em uma gaveta antiga, e encontrei vestígios de um atleta. Tinham medalhas do Futebol, da Natação, e até do Jiu-Jitsu. Meus pais se enchiam de orgulho quando eu trazia alguma para casa. Meu pai -principalmente- com a tolice de um velho babão, e a alegria de uma criança ao ganhar jujubas, enchia a boca pra dizer que no ultimo fim de semana, seu filho tinha conseguido uma medalha de ouro com um mergulho perfeito.
Saindo dos esportes, todavia, continuando na ação, as medalhas ganharam o nome de Distintivos, já que me tornei um Escoteiro. Infelizmente, o Grupo no qual participava acabou, e levou com ele as aventuras com lenço azul e roupa cáqui. (esqueci de mencionar que o Jiu-jitsu viera depois desta época. E as medalhas voltaram a ter o nome de Medalhas).
Depois das artes marciais, não recebi nenhum prêmio tendo o corpo como ferramenta, e as medalhas passaram a dormir em uma gaveta. E todo mundo sabe que poeiras entram em quase todos os lugares. Com elas não foi diferente. Parei e vi que apesar de ter passado pouco mais de uma hora desde o último banho, eu também tinha poeira sobre meu corpo, e pior, a disposição física de um enfermo(talvez agora eu tenha feito jus ao título que recebi de “Pseudo dramático”. Nem sei o que isso significa, mas o fulano que nomeou parecia ter uma grande convicção do que disse. Deveria ser um “Pseudo cult”). Foi isso que vi! Vi também que a inércia nunca combinou comigo. Uma das frases que mais ouvi na vida foi “esse menino inventa coisa”(meus pais falavam/falam, e muitas vezes com um tom não muito satisfeito). Minha resposta sempre foi: “já existia. Só comecei a fazer”.
Analisando meu corpo de velho que ainda nem chegou aos vinte, vi o quão a falta de movimento afetava minha autoestima. Agora(que não será “agora” quando você estiver lendo) escrevendo este texto, lembrei(o verbo no pretérito indica que o “agora” já passou até para mim. O tempo ainda vai acabar me matando!) que as ultimas vezes que coloquei meu corpo parar mexer, foi quando segui o conselho de uma amiga: dance! Corpo e mente sorriram. Gargalharam, na verdade. É incrível como essa separação não faz sentido algum quando os dois estão em harmonia. Eu estava com uma mente cheia de ideias, para um corpo cansado.
Estou longe de conseguir uma medalha como dançarino. Realmente sou péssimo fazendo isso. Mas fico ótimo depois que faço. E é isso que importa. As medalhas voltarão para a gaveta. Meu corpo não! Ele não cabe mais lá. Não digo que o movimento corporal é a peça chave para um bem-estar psíquico. Digo que essa foi a chave que encontrei pra mim, no momento. Encontre a sua, ou as suas; Faça um chaveiro. Só não arrombe portas. Além de ser crime, só fica bonito na ficção. Depois fica um vão aberto, e no inverno faz frio.
Agora vou parar de escrever. Amanhã terá Maracatu, depois será Sexta, e todo mundo sabe que as noites de domingo são um saco quando não se tem nada pra fazer. Então, me concede uma dança?

– Carlos I. Gomes.